5º Kangueiko de Aguaí 2026: dia 2 — treinos com Deguchi e Hashimoto, randori intenso e truco com o Dojo Yamamoto
O segundo dia do 5º Kangueiko de Aguaí foi o primeiro dia inteiro de treinos. A delegação Judô Honda Indaiatuba encarou quatro blocos — dois deles com medalhistas olímpicos —, palestra da Rosicleia e dividiu alojamento e mesa com atletas de dez países. Cobertura do dia 02/07/2026.
Na quinta-feira, 2 de julho de 2026, o 5º Kangueiko de Aguaí entrou no primeiro dia inteiro de treinos. Se a quarta serviu de apresentação, agora era pra valer: rotina de atleta de alto rendimento do café da manhã ao jantar, com quatro blocos de treino ministrados por senseis convidados e pelos dois medalhistas olímpicos que dão a marca desta edição — Christa Deguchi (Canadá) e Soichi Hashimoto (Japão).
E a delegação do Judô Honda Indaiatuba encarou tudo, do primeiro alongamento até a última partida de truco no alojamento.
Um dia que começa às seis da manhã
O ritmo de um kangueiko não é o do dojo em casa. Aqui, o dia começa antes do sol: 6h da manhã para o café coletivo, ainda no alojamento, dividindo mesa com centenas de outros atletas. É café da manhã de atleta de alta performance — com fila, com pressa e com conversa entrando por cima do barulho de talher e xícara.
Depois, todo mundo se prepara. Vestir o judogi, ajustar a faixa, checar os equipamentos, encher a garrafa d'água. Da E.M. Escola Joaquim Giraldi, onde estão hospedados os 380 atletas, até o Ginásio "Domingão", o CAT II da FPJ — o Centro de Treinamento da Federação Paulista de Judô. É uma caminhada curta, mas suficiente pra fazer a cabeça mudar de chave.

Judogi azul da FPJ pra quem tá inscrito no lado azul da chave; branco pro lado adversário. Fabiana Akemi Tsuji Palma, à frente do grupo, faz o transporte dos equipamentos junto com os atletas — a organização do dia a dia é tão parte do trabalho quanto o treino em si.
O bloco da manhã: Deguchi e Barbosa
O primeiro treino da quinta começou às 8h em ponto — G1 (Azul) sob o comando de Christa Deguchi. Medalhista olímpica, bicampeã mundial e onze vezes campeã de Grand Slam, Christa não veio para dar uma "aula demonstrativa". Ela puxou o treino de verdade, com metodologia, correção individual e ritmo de atleta de topo. Para os atletas Honda distribuídos no G1, foi a primeira sessão inteira sob orientação de uma judoca desse calibre — a diferença de repertório se sente no minuto zero.
Enquanto isso, no G2 (Vermelho), o sensei Barbosa conduzia a sessão paralela das 10h ao meio-dia — outro bloco fechado de trabalho antes do almoço coletivo.

Sensei Sergio Honda — na foto acima, à frente da delegação em direção ao ginásio — acompanha os atletas em todos os deslocamentos e observa cada bloco de treino. Como responsável técnico, ele traduz o que os convidados estão passando pra realidade de cada aluno do Honda. É esse filtro pedagógico que faz o kangueiko caber, dias depois, na aula de Indaiatuba.
Almoço coletivo: 380 atletas na mesma mesa
O intervalo entre os treinos da manhã e da tarde não é folga. 11h às 14h — almoço. Mais uma vez, mesa coletiva, todo mundo junto. Atletas de dez países, senseis, dirigentes, pais e mães que acompanham. É neste ponto que a vivência de imersão começa a fazer diferença: você come na mesa do adversário do próximo domingo. Isso muda tudo — inclusive o que se enxerga como adversário.

Entre o almoço e o próximo treino, um respiro curto no alojamento. Descansar as pernas, refazer as duas ou três coisas que a memória do corpo pediu depois da sessão da manhã, e se preparar de novo. A escola vira dojo. Cada beliche vira base. Cada corredor vira ponto de conversa técnica.
Vida compartilhada com o Dojo Yamamoto
Uma das marcas desta imersão é que os atletas Honda dividem quarto com outra equipe: o Dojo Yamamoto. Duas academias, dois métodos, uma mesma turma de meninos e meninas que passam a viver como se fossem de casa. Emprestam judogi de reserva quando precisa, dão dica de aquecimento, ajudam com fita adesiva no dedo machucado — e, entre um treino e outro, jogam truco.

Truco entre as duas equipes virou o esporte extra-oficial do alojamento. Roda de meninos sentados no chão, cartas espalhadas, gritinho de vitória, provocação amistosa. É desses momentos que nascem as amizades que sobrevivem ao kangueiko — porque não são construídas no tatame, quando cada um está focado no próprio treino. São construídas depois. No chão do dormitório. Com carta na mão.
E é aí que a filosofia japonesa que dá nome ao judô — Jita Kyōei, "prosperidade mútua entre si e o outro" — para de ser slogan e vira vivência. Você não cresce sem o outro. Sem o Yamamoto pra jogar truco, sem o adversário francês pra treinar randori, sem o menino japonês pra pedir um cumprimento no corredor — o kangueiko é meia experiência.
O bloco da tarde: randori, físico, técnico
Se a manhã foi de refinamento, a tarde foi de intensidade. Bloco das 13h45 às 15h15: G1 sob comando conjunto de Fuzita, Danilo e Diego. Sessão pesada de trabalho técnico e físico — os três senseis se revezam, cada um com um foco, mantendo o grupo em movimento sem quase tempo pra sentar.
Depois, a partir das 16h, o momento mais aguardado do dia: G2 com Soichi Hashimoto — bronze olímpico de Paris 2024, campeão mundial em 2017, hexacampeão de Grand Slam. Duas horas de treino com um dos maiores nomes vivos do -73 kg mundial da última década. Randori em ritmo de competição, correção de detalhe técnico feita por quem ganhou os detalhes que decidiram medalhas olímpicas.

O ginásio abobadado — com suas seis áreas de tatames olímpicos — vira um mosaico de duplas. Aqui um bloco de randori em pé, ali um ne-waza (solo) trabalhando saídas de imobilização, mais adiante um grupo em uchi-komi, a repetição controlada de entradas de golpe. Cada faixa etária no seu espaço, cada nível técnico no seu ritmo — mas o clima geral é o mesmo: ninguém está aqui de brincadeira.
A palestra da Rosicleia
Entre os dois blocos da tarde, às 15h15, o único momento do dia que não é treino: a palestra da Rosicleia. Nome consagrado do judô brasileiro, referência dentro e fora do tatame, Rosicleia dividiu com os presentes a experiência acumulada de uma vida no esporte. Palestras num kangueiko não são pausas — são calibragem mental. É onde os atletas aprendem que o físico e a técnica não são nada sem a cabeça no lugar certo. E é onde os pais e senseis presentes veem em primeira mão o discurso de quem passou por tudo o que os alunos estão só começando a passar.
Sessão de foto e autógrafo
Depois do treino da manhã, uma pausa organizada pelos organizadores: sessão de foto e autógrafo com Hashimoto. À noite, depois do jantar, foi a vez de Deguchi. Cada atleta pôde levar pra casa uma foto pessoal, um autógrafo no judogi, um cumprimento de olho no olho com quem já subiu ao pódio olímpico.
Não é firula. É memória de infância. Uma menina de nove anos que hoje conheceu Christa Deguchi de perto pode ser a mulher que, daqui a quinze anos, sobe ao pódio de um Grand Slam lembrando que começou olhando pra cima nesse dia — e resolveu que também queria chegar lá.
Rumo ao Brasileiro Sub-13 em Macapá
Um dos ganhos indiretos — mas talvez o mais importante — desta imersão começou a aparecer já nesta quinta: encontramos, no tatame do Ginásio Domingão, atletas de outras academias que também estarão no Campeonato Brasileiro Sub-13 em Macapá.
Para os judocas do Honda que estão nessa jornada rumo ao Brasileiro, isso muda a natureza do kangueiko. Cada randori deixa de ser só treino — vira leitura de adversário. Cada correção técnica passada por Deguchi ou Hashimoto vira ferramenta que, daqui a algumas semanas, pode decidir uma luta lá em Macapá.

No tatame do Domingão nesta quinta, apareceu um símbolo forte dessa preparação: Lídia Sayuri Tsuji Palma e Miguel Marciani Salerno vestindo o dorsal oficial da Federação Paulista de Judô — o mesmo padrão SP com patrocínios do BNDES e do Governo Federal usado pelos atletas paulistas em competições nacionais. Não é figurino de treino. É a identidade de quem representa o estado de São Paulo em circuito.

Ao lado deles, Lucas Miranda Tsuji treina com o kimono do Judô Honda Indaiatuba. Três atletas, mesmo dojo, mesma preparação — divididos entre o dorsal do estado e o do clube, mas somando no mesmo objetivo: chegar bem em Macapá.

E ao lado dos três, quem sempre esteve: o Sensei Sergio Honda, com sua faixa preta e o dorsal do Judô Honda nas costas. É a imagem que resume esta imersão — o mestre e os alunos, ombro a ombro, olhando pro mesmo tatame. Do lado direito da foto, o judô que a gente ensina em Indaiatuba. Do lado esquerdo, o judô que a gente vai defender pelo estado de São Paulo.
A preparação do Judô Honda para o Brasileiro Sub-13 começa aqui — e começa da melhor forma possível: sob orientação direta de dois medalhistas olímpicos, cruzando com os próprios adversários que a gente vai reencontrar no chaveamento.
O jantar e o fim do dia
19h às 21h — jantar coletivo. Mesma dinâmica do almoço, mesma sensação de comunidade. Só que agora todo mundo mais cansado, com mais história pra contar sobre o dia, com um treino no corpo que faz o prato render mais rápido.
Depois do jantar, o alojamento vira o lugar principal. Última partida de truco antes de dormir. Última conversa sobre o randori que deu certo (ou o que deu errado). Última risada com a equipe do Yamamoto no beliche ao lado. Amanhã tem mais.
O que a Honda leva do dia 2
- Dois treinos completos com medalhistas olímpicos — Deguchi (manhã) e Hashimoto (tarde)
- Repertório de randori trabalhado em ritmo intenso, com adversários de outras academias e países
- Convívio com o Dojo Yamamoto e mais dezenas de equipes — memória afetiva que fica pra vida
- Palestra da Rosicleia — inspiração fora do tatame
- Foto e autógrafo com dois atletas olímpicos — símbolo tangível do que essa semana significa
- Vivência real de rotina de atleta profissional — acordar cedo, comer coletivo, treinar em bloco, descansar rápido, treinar de novo
Amanhã: sexta-feira
O terceiro dia vai inverter os treinos dos convidados nos grupos. G1 pela manhã com Hashimoto (8h), G2 com Katsuhiro, Danilo e Diego às 9h45. À tarde, G1 com Barbosa às 14h e G2 com Deguchi às 16h. Entre um bloco e outro, novas sessões de foto/autógrafo e a segunda palestra da Rosicleia.
E, no sábado, o encerramento: 2ª Copa Internacional de Judô de Aguaí a partir das 8h — quando toda essa preparação vira competição de verdade.
Por enquanto, fica o registro. Um dia inteiro no tatame do Ginásio Domingão, sob o olhar de dois medalhistas olímpicos, dividindo alojamento e mesa com atletas de dez países. É exatamente para isso que existe um kangueiko. E é essa a experiência que os atletas do Judô Honda estão levando pra casa.