Pular para o conteúdo
Quem é Rosicleia Campos: a técnica lendária do judô feminino brasileiro que palestrou no Kangueiko de Aguaí

Quem é Rosicleia Campos: a técnica lendária do judô feminino brasileiro que palestrou no Kangueiko de Aguaí

Duas Olimpíadas como atleta, 16 anos como técnica principal da Seleção Brasileira Feminina, 22 medalhas mundiais e 5 olímpicas conquistadas sob seu comando. Um perfil de Rosicleia Campos — a treinadora que transformou o judô feminino brasileiro em potência olímpica.

03 de julho de 2026 ·Judô Honda Indaiatuba ·5 min de leitura
Quem é Rosicleia Campos: a técnica lendária do judô feminino brasileiro que palestrou no Kangueiko de Aguaí

Se você acompanha o judô brasileiro há tempo suficiente, sabe: existiu uma era antes da Rosicleia — e existe uma era depois dela. Em quinze anos como técnica principal da Seleção Brasileira Feminina, ela transformou uma equipe historicamente sem pódios em uma potência olímpica. E a lista de "primeiras" que ela ajudou a escrever é longa demais pra caber num título.

Ela é a Rosicleia Cardoso Campos — no Instagram, @rosicleiacamposjudo. E, na semana em que sobe ao palco do 5º Kangueiko de Aguaí para uma das duas palestras do evento, vale explicar por que a presença dela lá é tão especial.

O básico

  • Nome completo: Rosicleia Cardoso Campos
  • Apelido: Rosi
  • Nascimento: 7 de novembro de 1969, no Rio de Janeiro
  • Graduação: 6º Dan (Rokudan) — faixa vermelha e branca, uma das raras concessões no judô brasileiro
  • Clube: Clube de Regatas do Flamengo (desde 1986 — quase quatro décadas de casa)
  • Categoria como atleta: meio-médio (−66 kg)

A judoca

Rosicleia começou em 1982, aos 12 anos, na Academia Ren Sei Kan, sob a orientação do sensei japonês Takeshi Ueda. Em 1986, chegou ao Flamengo — o que viraria a casa dela para o resto da vida.

Dos 15 aos 30 anos, defendeu a Seleção Brasileira. Colecionou títulos que dão a dimensão do peso dela na modalidade no Brasil:

  • 7 vezes campeã sul-americana
  • 9 vezes campeã brasileira
  • 16 vezes campeã carioca

E disputou duas Olimpíadas pela seleção: Barcelona 1992 e Atlanta 1996. Nos dois, entrou no top 20 mundial do −66 kg — categoria historicamente dominada por francesas, japonesas e cubanas naquele período.

A técnica — e a virada histórica do judô feminino brasileiro

Foi como técnica que Rosicleia entrou definitivamente para a história do esporte no país. Assumiu a Seleção Feminina Juvenil em 2001 e, em 2005, o comando da Seleção Feminina Adulta. Foram 16 anos à frente da equipe.

Sob a orientação dela, o judô feminino brasileiro escreveu uma lista de primeiras vezes que mudou o mapa da modalidade no país:

  • Pequim 2008 · Bronze de Ketleyn Quadros — a primeira medalha olímpica de uma mulher brasileira em um esporte individual (qualquer modalidade)
  • Londres 2012 · Ouro de Sarah Menezes (−48 kg) — o primeiro ouro olímpico do judô feminino brasileiro
  • Rio 2013 · Ouro Mundial de Rafaela Silva (−57 kg) — o primeiro título mundial adulto feminino do judô brasileiro
  • Rio 2013 · Bronze Mundial por equipes — a primeira medalha mundial por equipes

No total, os números da carreira dela como técnica falam por si:

  • 22 medalhas mundiais (individuais e por equipe)
  • 5 medalhas olímpicas
  • 7 medalhas Pan-Americanas (2007)

E, em 2011, veio o reconhecimento nacional: Prêmio Brasil Olímpico de melhor técnica do país entre todas as modalidades olímpicas — não só o judô. Todas.

Rokudan: a faixa vermelha e branca

Em fevereiro de 2014, Rosicleia foi graduada ao 6º Dan pela Federação de Judô. O 6º Dan concede o direito de usar a faixa vermelha e branca — uma honraria concedida a muito poucos judocas no Brasil, que reconhece serviços prestados à modalidade para além do que se conquista competindo.

Rosicleia usa essa faixa hoje por direito próprio — não por representação, mas porque foi construída, tijolo por tijolo, ao longo de quatro décadas.

2021: o fim de um ciclo

Em 16 de dezembro de 2021, Rosicleia anunciou a saída da Seleção Brasileira. Havia sido, ao total, 37 anos a serviço do judô nacional — como atleta e como técnica. Em sua carta de despedida, ela escreveu:

"Durante 37 anos estive a serviço da Seleção Brasileira de Judô. Foi um trabalho feito com amor, entrega e propósito."

Passou o comando para Sarah Menezes — aquela mesma Sarah que Rosicleia levou ao ouro em Londres 2012. A campeã olímpica que a técnica ajudou a formar assumiu a cadeira em que ela sentou por 16 anos. Não existe fecho mais bonito que esse.

O que ela faz agora

Rosicleia segue ligada ao Flamengo, à formação de novos técnicos, à disseminação do judô feminino brasileiro — e virou uma das palestrantes mais requisitadas do esporte no país. Trabalha com temas como liderança, superação, esporte como transformação social e o papel da mulher no esporte de alto rendimento. Empresas, escolas, federações — ela transita entre esses espaços com o peso de quem viveu tudo o que fala.

Em uma entrevista, resumiu sua filosofia com uma frase que virou marca:

"Esporte e educação mudam vidas."

Por que ela está no Kangueiko de Aguaí

Uma imersão como o 5º Kangueiko de Aguaí — com 380 atletas de dez países, dois medalhistas olímpicos e uma programação de quatro dias — precisa de mais do que treino. Precisa de inspiração. Precisa de voz. Precisa de quem consiga olhar pra centenas de meninas e meninos entre 8 e 20 anos e dizer, olho no olho: "esse caminho é possível — e eu vi de perto todas as etapas dele."

Rosicleia é essa voz.

Rosicleia Campos, com a faixa vermelha e branca do 6º Dan, ao centro entre Fabiana Akemi Tsuji Palma (faixa marrom) e Lídia Sayuri Tsuji Palma (faixa laranja), no tatame do 5º Kangueiko de Aguaí
Rosicleia Campos com Fabiana Akemi Tsuji Palma (esquerda) e Lídia Sayuri Tsuji Palma (direita), da delegação do Judô Honda Indaiatuba, no tatame do Ginásio "Domingão" em Aguaí. Repare na faixa vermelha e branca da Rosi — o Rokudan raríssimo do judô brasileiro.

Na quinta e na sexta-feira desta semana, entre um bloco de treino com Christa Deguchi e outro com Soichi Hashimoto, ela sobe ao palco do Ginásio "Domingão" e conversa com o público sobre o que aprendeu em quatro décadas de tatame — como atleta que dobrou joelho olímpico, como técnica que ergueu campeãs olímpicas, e como mulher que virou referência sem pedir licença pra ninguém.

Os atletas do Judô Honda Indaiatuba estão lá, ouvindo. É o tipo de palestra que se ouve uma vez na vida — e que pode, para quem tá começando, mudar tudo.


Fontes desta matéria:

Filiações Oficiais

O Honda é parte da rede oficial do judô, do estado ao mundo.

Filiação ativa que assegura participação em campeonatos, graduação reconhecida e formação dentro dos padrões internacionais.

[ Substituir SIGLAS por logos oficiais das federações quando disponíveis ]